CONTO: Filtro dos sonhos

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De manhã quando acordava, Ariel olhava para o teto imaginando como seria o dia, sem ânimo para vivê-lo. Ela levantava e, bocejando, desejava bom dia para sua mãe - apenas por mera formalidade. Em seguida, por costume, pedia a benção.
Ao sair de casa, com os primeiros raios solares que tocavam a sua pele esbranquiçada, sentia, indiretamente, um vago entusiasmo para prosseguir em seu caminho.
Ariel era dona de cabelos longos, negros como a noite, e olhos grandes de cor escura que, além de demonstrarem uma profunda tristeza, transmitiam também uma doçura incompreensível. Assim como seus pensamentos, confusos e agitados, que, às vezes, nem ela os compreendia. Seus lábios entreabriam-se para falar com pesar. Seus movimentos pareciam limitados à sua própria visão. Ariel sentia um vazio e, silenciosamente, durante as madrugadas, debulhava-se em prantos.
No verão passado, a morte chegou para duas pessoas em sua família, pelas quais ela possuía imenso respeito e admiração, pois tinha sido elas que ajudaram em sua criação: não teria mais suas queridas avós. Ariel se viu perdida em uma escuridão que ela própria havia criado, numa tentativa frustrada de fugir dessa realidade. Ela as amava.
Era difícil aceitar o que havia acontecido. Foram perdas significativas que deixaram um lugar vago em sua vida; de modo que ela buscava compreender. Contraditório. Se não há aceitação, que dirá entendimento. No entanto, ela tentava. Escondia sua tristeza e vulnerabilidade, mascarando-se, querendo refugiar os sentimentos com um sorriso que não a pertence, para evitar questionamentos alheios desnecessários. Procurava persuadir seu interior a almejar somente coisas que lhes faziam bem: estudos, amigos, leitura, música, sua mãe... E tentava se desprender do triste acontecido que tanto a abalou.
Assim, ela alcançava o bloqueio desses maus pensamentos de forma produtiva e aumentava seu conhecimento, fazendo de si um cemitério de memórias.
Seu sorriso já não brilha como antes. Sua mente está cruelmente maltratada. Ao menos ela executa o grande conselho que lhe foi dado pelas falecidas: __ é preciso determinação para recomeçar após entraves que venham a surgir na vida. A morte é uma das maiores barreiras. Quem sabe a maior! Difícil de superar. Mais difícil ainda de compreender.
Entretanto, todos sabem que, paralelo à vida, há a morte. É inevitável. Ela sempre estará presente. Ou não?!








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